Simplicidade

"Sintaxe à vontade"

11:52

Domingo Triste

Sentimento simplificado por Caribé |



O homem canta


a tristeza esconde

o futuro inventa

o passado o consome
cervejará toda sexta

aos sábados outra vez

morrerá aos domingos

de tédio talvez

cometerá injúria

condenará sua mulher

a viver consigo

na esperança da fé

será bajulado

com a viola na mão

e contará os centavos

que sobra do quinhão

vai incendiar seu cigarro

com pose imponente

e depois de alguns anos

cairão os seus dentes

será escultura

um busto em bronze

na praça jazida

no lugarejo mais longe

falará tantas linguas

morrerá de fome

vai ganhar no bicho

a sentença de morte

nascerá para a elite

numa breve passagem

foi pobre uma vida

que nao lhe deixa saudade

a viola esquecida

no canto do quarto

só era bem-vinda

nos dias amargos

vestiu sua mulher

de toda avareza

se acostumou no perfume

da vida duqueza

numa tarde cinzenta

de um breve domingo

viu as roupas jogadas

e duas taças de vinho

a vista escura

a faca na mão

é sangue e perfume

são dois corpos no chão

se afastou inocente

tropeçou no violão

espalhou querozene

derrubou o lampião

e lembrou sorrindo

das serestas que fez

e num triste domingo

morreu outra vez

 
Diogo Caribé

01:40

A prática do Caos

Sentimento simplificado por Caribé |

Quando ouvi falar pela primeira vez sobre "A Teoria do Caos" e seu famoso efeito borboleta, fiquei logo fascinado pela possibilidade poética com que a física consegue prever uma ordem em acontecimentos, à primeira vista, aleatórios. O bater de asas de uma borboleta que poderia desencadear um tufão do outro lado do mundo foi a maneira simplória e enredística que a física usou para explicar tal efeito, enchendo assim nossa caxola repleta de imaginações infantis secretas - facilmente cortejada e manipulada pela industria cinematográfica hollywoodiana.

A dinâmica infinita a que submetem as resultantes no cálculo das variáveis é uma dança com troca de pares. Ou seja, um resultado passa a ser dado numérico de outro, e assim, entrelaçados, dançam ao bailado imprevisível fitado por olhares finitos.

Poucos param para pensar em coisas do tipo. Mas algo que não deve ter durado pouco mais de segundos, tal como um estalo, aconteceu na vida de um cidadão na conceituada universidade de Harvard nos EUA, e tal acontecimento interferiu na vida de milhões de outras pessoas com a criação de uma rede social chamada Facebook. Outro homem que
mergulhava tranquilamente nas águas do pacífico foi pescado por um hidrocóptero que colhetava água do mar para apagar um incêndio numa floresta causada por uma guimba de cigarro que um infeliz jogou por ali. Foram semanas para desvendarem o mistério do corpo com roupa de mergulhador tostado no meio da selva (Mas isso é só outro exemplo).

Não quero aqui escrever pequenas lições que aprendi com a vida de que "o que você faz pode interferir em tudo à sua volta". Porém quero falar de um fato marcante neste início de 2011: a crise no oriente médio gerada pela luta contra as ditaduras em vários países daquela região. A revolta popular que vimos no Egito e a  renúncia do presidente Hosni Mubarak foi uma vitória popular que encheu nossos olhos ocidentais de orgulho e nossos corações preguiçosos de inveja. O povo foi pra rua de peito aberto, e mesmo machucado, ouviu-se o grito de liberdade engasgado há décadas pelas mordaças da intolerância do governo.

Não obstante, influênciados pelo vizinho de "carro novo", viu-se em vários países "daquela mesma rua", o mesmo tipo de movimentos e rebelião contra governos absolutistas. Uma ação e reação em massa limítrofe, que só foi  possível por meio de uma rede social criada por um carinha lá de Harvard, resultando na revolta e, de contra-partida, uma represália que culminou numa terrível e sanguinária batalha civíl entre rebeldes e simpatizantes do governo Líbio.

Um enorme tufão de sangue e tiros de metralhadora, rodopiando selvagem por cima das cabeças de um povo que grita e anseia por liberdade, mesmo que pagando com a própria vida, desencadeado por uma borboleta: Um feirante Tunísio ateou fogo em si mesmo, cerca de um mês atrás, em revolta contra os impostos cobrados pelo governo, inspirando outros dois mártires que foram movidos pela mesma raiva e  influenciados pela pequena, porém inflamada brisa do bater de asas daquela borboleta. Entrelaçando os passos; trocando os pares; modificando as variáveis, que tiram pra dançar uma jovem egípicia que postou no Facebook que iria à praça, depois do trabalho, e atearia fogo ao corpo se nada fosse feito para mudar aquele estado de corrupção, pobreza e falta de respeito com que o governo tratava a população egípcia. Outros três garotos juntam-se à jovem com cartazes de protesto nas mãos e gritam o mais alto que podem. E são ouvidos. São ouvidos não só naquela praça, não só naquele país. São ouvidos em todo o mundo. E suas vozes transformam para sempre nossa história.

01:17

Sobre Meu Silêncio

Sentimento simplificado por Caribé |


Meu amor,
peço desculpas se sou eu tão desligado,
fizeste a mim poemas tão inspirados,
e eu tão tarde a declarar minha paixão.

Peço perdão,
por me ausentar mesmo estando ao seu lado,
tens nas mãos um coração embriagado,
que a tempo está ressaquiado de desilusão.

Diz pra mim,
O que é que sentes quando olha nos meus olhos?
Se vê verdade meu amor eu te proponho,
escute meu silêncio ele tem muito mais a dar.

Pois assim,
Sinto-me a vontade de te amar devagarinho,
Amando baixo deixo em paz os passarinhos,
Por que poeta algum sabe de fato o que é amar.

00:26

Pensamentos

Sentimento simplificado por Caribé |


As vezes acho que não tenho muito o que dizer.
Sei bem fingir simpatia, admito.
Mas não sei se camuflo muito bem meu desinteresse.
Uma conversa, por mais simples que seja,
Requer uma atenção pregada, e um mínimo de conhecimento sobre o assunto.
Não sei se consigo iludir bem com minha falsa opinião.
Embora meu sentimento de complacência seja nobre,
Me amarga o peito ter que ferir assim meus desejos.
Costumo dar muito mais atenção ao silêncio.
É quando consigo ouvir com clareza meus pensamentos.
Quiçá pudera não embaraçar-me ao permanecer em silêncio mesmo que acompanhado.
Mas os bons costumes me sufocam até que eu cuspa palavras sem muito enredo.
Ansiamos, mais do que tudo, a atenção de outrem. 
E quando não a temos, acabamos por notar que há algo errado com nossa simpatia.
Sei bem como é isso.
É horrível não ser "retwitado".
Mas ainda mantenho esperançoso o desejo,
De que quem me queira por perto, 
Possa entender que meu silêncio também é valioso.
E que se eu pareça meio "avoado"
É que estou apenas pensando...

23:49

Alma Rasa

Sentimento simplificado por Caribé |



E lá me vem esses dentes amarelos de carro alegórico.
Querendo abrir minhas alas com essa simpatia sincopada.
E as bocas querendo me beijar com seu veneno.
E os olhos querendo me despir a minha vergonha.
E as gravatas que vem querendo me lamber o pescoço.
E as academias querendo me definhar os rasos músculos.
E os papéis vem brancos implorando por novos rabiscos.
E vem meus pés querendo calçar novos caminhos.
E me vem meu sexo desejando invadir novos domínios.
E num dia tudo passa,
E no outro tudo volta.

02:46

Clepsidra

Sentimento simplificado por Caribé |


O maior erro da vida é achar que se tem tempo demais.
Que a morte só o alcançará quando estiver terminado de cumprir sua cartilha, sua agenda.
Que deve-se ler primeiro o manual e depois realizar todas as etapas.
Nascer, crescer, reproduzir, envelhecer e morrer.
E quanto ao viver??
Por que hesitar tanto em modificar-se?
Por que provar só um gosto?
Viver só de sobras de sonhos...
Olhar só de um jeito,
Dar sempre a mesma opnião.
Usar sempre o mesmo corte de cabelo.
Tão triste não ser mutável.
Mas nem todos compartilham da mesma percepção.


23:00

Adaptação

Sentimento simplificado por Caribé |



Há algo em mim que não seja cópia ou farsa?
Talvez minha tristeza seja cópia de outras tristezas
E quem sabe minha felicidade também, 
Seja cópia de outras felicidades que vi por aí.
Vivo um dia de cada vez.
E cada dia é um novo começo.
O começo do fim.
Já nascemos morrendo.
Já nascemos clichezados.
Tenho que marcar uma consulta com o médico,
Meu peito dói.
Preciso tratar meus dentes.
Talvez se meu sorriso fosse mais branco, 
Eu seria mais feliz.
Passo o dia todo cansado.
Talvez se eu começasse a ir a uma academia eu poderia ser mais feliz.
Não precisaria ter vergonha de tirar a camisa na frente das pessoas.
Como se o disfarce fosse suficiente.
Eu devia voltar a acordar cedo,
e não só depois do meio-dia.
Eu poderia correr, tomar vitamina,
seis ovos batidos com banana e farinha da pastoral.
Preciso mudar minha vida.
Preciso amar mais as pessoas.
Preciso ler um livro até o fim,
Preciso voltar pra faculdade,
Preciso do perdão de pelo menos 7 pessoas,
Que eu já não lembro mais o motivo da mágoa.
E algumas, não lembro mais quem são.
E se eu aprender um novo idioma, alemão ou qualquer outro.
E se eu viajasse sem rumo, sem dinheiro.
E se eu abandonasse tudo.
Desistir da vida.
Desistir da tv, do microondas, do controle-remoto,
do computador, dos pornos, das redes sociais.
E se eu desistir do conforto, da boa vida...
Ou posso aprender um novo instrumento. Um violino.
Posso tentar escrever um livro. E terminá-lo.
Eu seria um violonista escritor que fala alemão.
Eu seria mais feliz.
Seria formidável.
Talvez mudar o corte de cabelo.
Mudar o estilo de roupa; entrar na moda.
Parar de agir como um peixe fora d´água.
Parar de agir como um tipo estranho.
Parar de ser tão patético.
Ser sincero e seguro.
É o que as pessoas gostam.
Agora homem também precisa ser bonito.
Tenho que parar de me desculpar por existir.
Vai ver tudo isso tem uma explicação química.
Todos os meus problemas de desequilíbrio psicológico
são explicados por reações químicas.
Todos os meus distúrbios, meus medos.
São explicados por fórmulas numa lousa.
Sinapses errantes.
Preciso me tratar.
Mas vou continuar sendo uma farsa.
Nada vai mudar isso.
Mesmo se eu parar de ter certeza.
E acreditar que sou único.
Continuarei sendo uma farsa.

01:21

Caretas

Sentimento simplificado por Caribé |


Pra aprender meu sapateado, pisa teu pé no meu,
gruda teu ouvido no que eu falo, 
Pendura tua mágoa no meu calo,
Se ajeita sem culpa no meu colo.
Me aquieta de manhã, meu mal-humor,
Me inventa no pensamento quando não souber de mim,
E se caso não souber me ler, me escreva.
Ou me rabisque, me improvise do seu jeito.
Sei bem me adaptar,
Mas logo aviso, sou dono das minhas vontades.
Porém posso querer te agradar.
E inventar trejeitos, simplificar dizeres,
Metamorfosear de poesia o que são apenas pensamentos.
Sou hoje o que quiser de mim.
Amanhã, me deixa ser do jeito que me for conveniente.

02:24

Segue o Fluxo

Sentimento simplificado por Caribé |


Siga o fluxo, mas vá de terno, não chegue atrasado.
Não chegue cansado, chegue cheiroso, chegue apresentável.
Conserve o bom corte, a barba bem feita, 
Não se manifeste, diga nada, concorde com tudo, só acene.
Durma cedo, acorde cedo, tome vitaminas.
Faça cooper de manhã, não fume! não beba! case!
Compre uma casa, um carro, uma TV, um sofá.
Compre um amor. E sorria sempre!
Ouça o que disserem para ouvir,
Compre o que mandarem,
Compre muito, compre tudo!
Siga o fluxo, não fuja, não rompa com o mundo.
Não decepcione ninguém além de você mesmo.
Seja bom, faça o bem, frequente uma igreja, acredite em Deus.
Em qualquer deus, escolha um.
Mande fazerem seu filho, mandem cria-lo, deixa que te mostrem como é o certo.
Siga as receitas, leia as revistas, veja as novelas!
Sorria sempre! siga o fluxo! sempre triste! copie as roupas!
Copie tudo! siga a moda! seja triste! não fume! case!
Finja!.... ou fuja

03:22

Expressão

Sentimento simplificado por Caribé |

Diz ser pela saudade a sua volta,
Mas se puder ver pela expressão de meu rosto,
Pelo tom menos grave da minha fala,
Pelo desprezo de galope em minhas sobrancelhas,
Pelo sopro assoviado por dentre os dentes,
Que eu sei que você sabe que nada disso você sente.

02:26

Pra Lá Do Tempo Presente

Sentimento simplificado por Caribé |


Onde o porto me espera,
Onde a saudade me sente,
Onde a fome me enche,
E o ar não me assopra.


Pra lá do tempo presente,
Atrás da tua cortina,
Da janela da frente,
Para uma rua vazia.
A saída me leva,
Até a porta da entrada,
O copo cheio me esquece,
Da cerveja gelada,
O meu sangue endurece,
E meu peito dispara.

Enquanto a gente se esquece,
Imaginando o futuro,
Um raio laser atravessa,
A mente sem parafuso,
E domina o sorriso,
E acaba com tudo.


Onde a sorte me leva,
A mágica do absuro,
Quem em sã conciência,
Vira as costas pro mundo?

A bebida me leva,
A um estado obscuro,
Mas nessa hora que enxergo,
O que estava no escuro,
Com a voz carregada,
Cuspo fora o insulto.

Nem que haja somente,
Uma razão pra isso tudo,
Quero viver plenamente,
Mesmo que um tanto confuso.

19:30

Em criação

Sentimento simplificado por Caribé |


Deus criador do milagre,
O diabo da mentira
E o homem do santo
O caminho inventor da estrada
O vinho da ressaca
E o sono do acalanto
O sangue inventor da veia
A noite da ceia
E os olhos do pranto
A distancia inventora da saudade
O riso da amizade
E a feiura do espanto
O passo inventor do samba
O artista da canja
E o sapo do canto
O cheiro inventor da flor
O poema inventor do amor
E a mulher do encanto.



Diogo Caribé

01:37

Clones

Sentimento simplificado por Caribé |

Os olhos sempre erguem-se pro céu clamando respostas e explicações.
Revelam o quão limitados somos perante nossas dificuldades.
Entregamos de bandeja nossas mais profundas fraquezas.
E os pecados amontoam-se pelas ruas ao som do barulho semitonado das sirenes.
Chantageados pela carne, movidos pela sedenta fome de seus personagens.
Pendurando pela noite conversa fiada, em barbantes, presas por pregador.
E voltam para suas casas, para suas tristezas.
Para as angústias que tentam disfarçar com mais uma noite vã.
Vivemos tantas vidas que não temos enrredo para uma história decente.
Somos tão diferentes do que somos, que já nem sabemos mais do ser original.
Somos clones vivendo sob a mesma carcaça.
Em pele e carne viva e alma morta.
Nos esquivamos do amor pois temos medo da mágoa.
Nos esquivamos do abraço pois temos medo do sufoco.
Nos esquivamos de Deus pois temos medo que Ele, de fato, exista.
Não encontramos nossas respostas, pois perdemos tanto tempo 
Olhando para o céu em busca delas 
Que acabam escapando de nossas mãos.



Diogo Caribé














14:21

Amor Utópico

Sentimento simplificado por Caribé |



Se faz bem morena pros meus olhos,
E faz molhado os meus lábios
Que eu vivo pelo recheio da tua boca, a língua.
E eu sou a alegria de te conhecer, 
E sou também a angustia de não lhe encontrar
Quando sua existência meu sentido perceber
Quando pelo meu ar teu cheiro passear
E for menina nos meus abraços apertados
E for mulher nos meus sonhos soltos
Vou desenhar a estrada que passa pelo teu caminho
E ate la meus passos vão andar sozinhos
E nem que leve toda a vida
E te perceba apenas no ultimo dia
Já valeu me amar por te amar
Me fiz mais forte seguindo teu rastro
E mesmo que seja saudade, amo este amor
Se diz minha, me diz tudo, 
E se for beijo, não diz nada
E se for nada, nem apareça
Que prefiro viver do amor a ilusão
Do que ser a tristeza daquilo que me falta

19:08

Da Minha Janela

Sentimento simplificado por Caribé |


Todos os dias, da minha janela,
Olho distante, me vejo distante,
Me desapercebo, me esqueço lá,
Onde nem um passo é capaz de chegar
Onde a solidão é uma boa companhia,
E o vazio que se tem é o que se jogou fora
Tudo que fazia mal e poluía a alma,
Tudo foi banido, a tristeza foi embora.
Da minha janela espriguiço a minha pressa
E transformo a poça d´agua na mais bela das lagoas
Me atiro de longe em pensamento,
Deslizando pelas costas do céu.
repousando no firmamento.
Da minha janela vivo o infinito,
Sinto no paladar o gosto da primavera,
Das flores que nasciam enquanto eu dormia,
Das chuvas que choviam enquanto minha lágrima secava.
Hoje percebo, olhando pela minha janela,
O quanto deixei de fazer, o quanto deixei de sonhar,
O quanto deixei de chorar, o quanto renunciei ao amor.
Hoje vejo o que escapou de mim,
No infinito onde nada mais pode chegar,
Apenas as minhas lembranças,
Para da minha janela, poder me recordar
De tudo aquilo que me faz falta.

17:05

Para pensar...

Sentimento simplificado por Caribé |

                "Esta é a história de um homem a quem eu definiria como um pesquisador.
Um pesquisador é alguém que busca; não necessáriamente alguém que encontra.
Tão pouco é alguém que, necessáriamente, saiba o que anda a buscar.

É simplesmente alguém para quem a vida é uma busca.

Um dia, o pesquisador sentiu que deveria ir até á cidade de Kamir.
Tinha aprendido a respeitar rigorosamente aquelas
sensações que vinham de um lugar desconhecido
de si mesmo.

Por isso deixou tudo e partiu.
Depois de dois dias de marcha pelos caminhos
empoeirados, avistou, ao longe, Kamir.

Um pouco antes de chegar à povoação, chamou-lhe
vivamente a atenção uma colina à direita
da azinhaga.

Estava atapetada de um verde maravilhoso e tinha
uma grande quantidade de árvores, pássaros
e flores encantadores.

Estava inteiramente rodeada por um pequeno muro
de madeira brilhante.

Um portalzinho de bronze convidava-o a entrar.

Sentiu logo que o povoado lhe fugia da memória
e sucumbiu à tentação de descansar por
um momento naquele lugar.

O pesquisador ultrapassou o portal e começou
a caminhar lentamente por entre as pedras brancas
que estavam dispostas ao acaso por entre as árvores.

Deixou que os seus olhos se pousassem como borboletas
em cada pormenor daquele paraíso multicolor.

Os seus olhos eram os de um pesquisador e foi talvez
por isso que descobriu aquela inscrição sobre
uma das pedras:
Abdul Tareg, viveu 8 anos, 5 meses,
duas semanas e 3 dias.

Ficou um pouco surpreendido ao dar-se conta de que
aquela pedra não era simplesmente uma pedra:
era uma lápide.
Sentiu pena ao pensar que um menino de tão
tenra idade estava enterrado naquele lugar.

Olhando á sua volta, o homem deu-se conta que
a pedra ao lado também tinha uma inscrição.
Aproximou-se para a ler.
Dizia: Yamir Kalib, viveu 5 anos,
8 meses e 3 semanas.

O pesquisador sentiu-se terrivelmente comovido.
Aquele lindo lugar era um cemitério e cada pedra
era uma campa.

Começou a ler as lápides uma por uma.
Todas tinham inscrições semelhante:
um nome e o tempo exato de vida do morto.

Mas o que o enleou de espanto foi comprovar
que aquele que tinha vivido mais tempo
mal ultrapassavaos onze anos.

Paralizado por uma dor terrível, sentou-se e
pôs-se a chorar.

O encarregado do cemitério passava
por ali e aproximou-se.

Observou-o a chorar durante algum tempo
em silêncio e perguntou-lhe logo a seguir
se chorava por algum familiar.

-Não, não é por nenhum familiar- disse o pesquisador.
- Que se passa nesta povoação?
Que coisa horrível acontece nesta cidade?
Porque é que há tantas crianças enterradas neste lugar?
Qual é a maldição horrível que pesa sobre estas pessoas,
que as obrigou a construir um cemitério de crianças?

O ancião sorriu e disse:
- O senhor pode tranquilizar-se.
Não existe uma tal maldição.
O que acontece é que temos um costume antigo.

Vou contar-lhe:

"Quando um jovem completa quinze anos,
os seus pais oferecem-lhe um livrete como este
que tenho aqui, para que o pendure ao pescoço.

É tradição entre nós que, a partir deste momento,
de cada vez que alguém desfrute de alguma coisa,
abra o livrete e anote nele:

À esquerda, o que foi desfrutado.
À direita, quanto tempo durou o prazer.

Conheceu a sua noiva e enamorou-se dela.
Quanto tempo durou essa paixão enorme
e o prazer de a conhecer?

Uma semana?
Duas?
Três semanas e meia?
E depois, a emoção do primeiro beijo.
Quanto durou?
O minuto e meio do beijo?
Dois dias?
Uma semana?

E a gestação e o nascimento do primeiro filho?
E as bodas dos amigos?
E a viagem mais desejada?
E o encontro com o irmão que
regressa de um país longinquo?

Quanto tempo durou o desfrutar
dessas situações?
Horas?
Dias?

Assim vamos anotando no livrete cada momento
que desfrutamos em intenso prazer.

Quando alguém morre, é nosso costume
abrir o seu livrete e somar o tempo em
que sentiu prazer para anotarmos
sobre a sua campa.

Porque é esse o que conta à nós
o único e verdadeiro
tempo VIVIDO.!!"
 
(Jorge Bukay)

20:00

Toda forma de mentir

Sentimento simplificado por Caribé |

Ao contrário do que muitos acreditam pensar,
Parecer ser o que não se é
É uma das maiores perícias que um ser humano é capaz de ter.
Daí, pode-se pensar que chega a ser idiotice
Saber ser só de um jeito
Ou pensar apenas de uma maneira.
Se o Criador, com toda a sua sabedoria,
Nos deu em exclusivo o dom de mentir,
de enganar, de sabotar, de infrigir...
Por que então fingir que não usamo-os?!
Para parecermos ser o que não somos, talvez: honestos?!
Saber mentir, no sentido de se fazer acreditar na mentira,
É ainda dom maior. Chega a ser uma dádiva,
Já que é muito o que se recebe por uma boa farsa.
Felizmente, nem todos somos bons atores,
E deixamos escapar em singelos movimentos, o nosso blefe.
Desabençoados os que não sabem mentir,
Não vão a lugar nenhum exceto ao céu.
(nunca a uma mesa de pôquer )
Mentimos a todo momento,
Mentimos tanto que nos esquecemos de dizer a verdade
quando ela deve ser dita.
Talvez seja por mania, ou por vício.
Ou o nosso lado negro que da risadas
Quando fazemos alguém de bobo.
Mentimos sempre e para todos,
Mais ainda para as pessoas que amamos,
Com a desculpa esfarrapada que não queremos magoá-las,
Ou deixá-las infezadas conosco.
Mentimos para nossos pais, mães, namoradas,
professores, para nossos amigos. Mentimos até para nós mesmos.
Mas nos esquecemos do básico;
Talvez por culpa de um ego tão grande,
Capaz de massacrar qualquer tentativa
de mentir sobre nossa modestia,
Isso em relação apenas a nós mesmo,
Por que sabemos que não somos modestos,
Só parecemos ser.
Enfim, o que nos esquecemos (antes que eu me esqueça)
É que mentem para nós também.
A todo momento.
E justamente as pessoas mais próximas,
As que mais amamos,
As que julgamos conhecer bem,
E que temos certeza de ver a veracidade das palavras
num olhar fixo e fajuto.
Há pessoas que mentem sem precisar dizer uma palavra sequer,
Com um sorriso, com um abraço com um beijo, com uma foda, o que for.
O certo é que mentimos, seja por prazer, obssessão,
mania, necessidade, por amor, ou por inocência,
Sei que acima de tudo, mentimos por sobrevivência.

08:09

Razões

Sentimento simplificado por Caribé |

Por nenhuma razão eu escrevo.
Nem por amor, tampouco por mania.
Talvez seja por necessidade,
Ou para cuspir em tinta
As frases que meu coração embaralha.
Por nenhuma mania eu sonho.
Não é por esperança, tampouco por razão.
Talvez seja uma maneira que a alma encontra
Para consolar-me das frustrações
Proporcionadas pelas limitações do meu corpo,
E as fraquezas do meu coração.
Já as razões pelas quais eu vivo,
São tantas quantas as faíscas que o sol esquece no mar
Antes de repousar.
É a força que encontro em cada amanhacer,
É a vontade que tenho de sorrir,
E o desejo de ganhar sorriso de volta;
Das manias com as quais convivo,
Nenhuma me tira mais a razão,
Do que gostar,
E gostar sozinho.
E esta solidão, não de companhia,
Mas de sentimento,
É que embaralha os meus pensamentos,
E tornam vãos os meus sonhos.

08:23

Amor Calado

Sentimento simplificado por Caribé |

Meu amor é amor quieto, calado
Contido, envergonhado.
É amor sem palavras,
não, que seja indescritível
-senão que razão teriam essas palavras?!-
Não! É amor que não se declara,
Não se manifesta.
É amor devagarzinho, sem pressa,
Sofre igualmente aos outros amores,
Mas sorri com sorriso desconfiado, de canto de boca.
Por que sabe que se não durar o tempo que precisa,
E não for tão intenso quanto se espera,
O que o torna solidão,
Já confronta as esperanças de um amor tranquilo,
Antes mesmo de se florescer com verdade,
E de despertar da monotonia e do tédio de não amar ninguém.
Pois quem vive sem amor,
Vive pelas coisas que vê,
E descarta as coisas que sente.
Até desaprender a sentir,
E inventar amor onde só há carência,
E então tentar descrever o amor
Prová-lo
Exigir do amor, 
Escandalizá-lo.
Um amor puro, 
ao meu modo de sentir,
Ama baixinho e acanhado.










23:20

Todos Os meus Olhares Procuram Amores Voadores

Sentimento simplificado por Caribé |

Se a gente já se olhou com todos os olhares
E já se provou no imaginário da língua
Se já esculpimos o corpo do outro na memória
Embolamos nossos corações desordenados,
E acariciamos no vento o rosto feito do pensamento,
Se nos cantamos nas músicas mais melosas,
E confundimos palavras já prontas,
Se esquecemos de dormir por prestar atenção
Nas cenas criadas no escuro entre a retina e a pálpebra,
E de mãos dadas passeamos em sonhos,
E a voz do outro acaricia o ouvido
Antes mesmo dos olhos pensarem em abrir,
E antes do primeiro pensamento.
Por que, se ao invéz de sentirmos falta
Sentimos a presença assombrosa e delicada,
De um amor que nem sequer sabe que existe?
Me diz, então, por que não?

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