Simplicidade

"Sintaxe à vontade"

03:14

Roupa Velha

Sentimento simplificado por Caribé |




A água borbulhava na leiteira,
E o alumímio refletia a tristeza do olhar,
Mais um café de outro dia,
Que começava já com pressa de acabar.

Nos varais as roupas velhas,
Com recordações que se foram de tanto se enxaguar,
E de baixo da janela as tantas rezas,
Que não tiveram força para no céu chegar.

No céu o sol vem tímido, com preguiça de clarear,
E lá de longe a chuva ja vem vindo, já se cai uns pingos, mas não a ponto de molhar.
No quintal a grama alta com uma única roseira já sem flor para cheirar,
E um pé de goiabeira cheio por que os meninos já se cansaram de roubar.

Na leiteira a água evapora, o café demora, a grama cresce,
A roseira apodrece, a goiabeira envelhece, e a mulher chora.
E chora sem saber mesmo por que, se é pelo abandono, ou se é pelo outono,
que vem desfolhando a alma e teima por tempos ir embora.

Na varanda, esquecidos, os beijos que se davam escondidos,
O homem era do tipo que já não se nasce mais em nenhum lugar,
Fazia de tuas palavras poesias e escrevia prosas sem rimas,
E quando virava a esquina já pensava no outro dia, na hora de chegar.

E o barulho que se faz lá fora incomoda o silêncio dos teus passos,
Teus pés descalços descançam já do salto, e tua boca do baton,
Tua cor descança em cinza e teu cabelo descança em branco,
O teu rosto descança em rugas e teus olhos em pranto.

E quando a noite já vem pálida, triste e sem graça,
Ela pega a sua última reza caída na janela,
Se benze e se deita em seu leito e dorme sem sonhar,
Antes sonhava sem dormir, agora dorme sem querer acordar.

Mas acorda.

E na leiteira a água evapora, o café demora, a grama cresce,
A roseira apodrece, a goiabeira envelhece, e a mulher chora.
Lá fora a vida acontece, mas ela se perde,
Quando uma porta aberta não encontra.

*Só há vida quando há significado.

7 Discussões:

Jf. Barbosa disse...

Nem em meias palavras poderia descrever tão claramente minha alma.
Parece que me foi dado o significado do que costumo pensar..

Abraços

Caribé disse...

Longe de mim fazer tal coisa. Mas obrigado pelas palavras.

Renato Martins disse...

Muito interessante o texto...
Bem retrativo e descritivo...

Realmente, muitas pessoas deixam a vida chegar a um ponto incrivelmente deprimente!
a solidão mata a alma e mantêm vivo o corpo... e isto é padecer em vida!

Caribé disse...

Isso ae amigo. Pegou a idéia central.

Anônimo disse...

Sem palavras..Perfeito!! Simplesmente verdadeiro..

Caribé disse...

Obrigado anônimo. rs

thamy disse...

eu ja li esse várias vezes, mas nao comentei...que poeta é esse que eu nao conheciaa?? rsrs amei! te adoro di!

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